Existe lealdade na política?

Chagas Batista – Nos dias atuais, é muito difícil o cidadão acreditar no cumprimento da palavra de um político. Mas será que é impossível lealdade na política? o senso comum diz que não!

A lealdade política não é apenas uma relação entre os políticos, é essencialmente , uma relação de compromissos com o programa partidário, suas diretivas e com o povo que elegeu.

Apesar descrença majoritária difundia, eu continuo acreditando que a coerência e a lealdade ainda existe e é o único caminho para construção de uma sociedade mais justa e comprometida com valores coletivos.

Além dos valores que apreendi na minha escola política, um acontecimento e um personagem que conheci na minha longa história de militância, me inspira e me faz ter crença. Me refiro a um caminheiro já falecido, chamado Chico Crente.

Chico Crente faleceu em 2006. Morou no seringal Sumaré, alto Rio Tarauacá. Era uma grande liderança sindical e militante leal do Partido Comunista do Brasil. Conheci ele em 1989, em uma reunião do sindicato, no seringal que morava.

Na reunião, no meio dos trabalhadores, identifiquei um velho com uma fisionomia diferente, uma expressão forte, mais ou menos parecida com um índio Apache. Um figura que se diferenciava.

Falando uma voz mansa e de sábio, como se soubesse todas as nossas intenções, começou a falar tudo que eu queria ouvir. Organizar o sindicato, abolir o pagamento da renda, fortalecer a voz dos trabalhadores rurais para lutar por transporte, saúde, educação e dignidade.

Saí daquela reunião certo de que tinha encontrado uma liderança e um amigo para lutar por um Tarauacá mais justo. Foi exatamente isso que aconteceu. Chico foi um lutador fiel até o último dia da sua vida.

Francisco Máximo Moura, o (Chico Crente) era brincalhão, observador e leal. Cumpria rigorosamente todas as tarefas que eram lhes designadas. Nos momentos mais difíceis, nas minhas andanças pelo Rio Tarauacá até o município do Jordão, lutando para dar voz aos trabalhadores e organizar o PCdoB.

Na época foi i meu principal companheiro para fundar o PCdoB no Jordão. Sem ele, a viagem ficava sem graça e os sonhos sem ousadia. São muitas as suas histórias, impossível contar todas apenas nesse espaço.

Chico nunca faltava uma reunião, no dia certo ele chegava, remando ou varejando, chovendo ou fazendo sol. Nas campanhas eleitorais do partido ele era o mais entusiasmado, passava dias viajando Rio acima como um viajante da esperança, um militante máximo.

Um dia, pedimos ao Chico para se candidatar a vereador pelo município do Jordão. A proposta foi prontamente aceita por ele, que iniciou logo as conversa nas andança, subindo o rio puxando ‘cisga’. O partido lançou dois candidatos a vereadores, numa coligação de chapas com PT e PV.

No dia da eleição, avaliando que era necessário eleger pelo menos um vereador do partido no Jordão, decidiu votar no outro candidato a vereador do partido, porque achava que seu camarada tinha mais chances de Vitória. Sua família e amigos haviam viajando três dias varejando para votar nele e eleger vereador.

Sem consultar a família e os amigos, votou no candidato do partido. Após apuração dos votos veio a grande surpresa: Chico perdeu o eleição por um voto, que seria o seu próprio. Se tivesse votado nele mesmo seria vereador. Esse fato ficou marcado para sempre na minha memória, porque não é comum, só acontece com os grandes homens, homens coletivos.

Nessa eleição, PCdoB participava de uma coligação com outros partidos e ele achava que o partido não podia terminar aquela eleição sem pelo menos um vereador eleito. Chico enxergava longe, via que os interesses coletivos eram bem maiores que os seus.

Ainda lembrando Chico Crente, recordo que um certo dia, em uma manifestação dos trabalhadores rurais de Tarauacá na frente da prefeitura reivindicando melhorias para a zona rural, eu, junto com outros companheiros, fomos presos pela polícia, a cidade foi sitiada e ninguém podia passar na rua da delegacia. A ordem da prisão partiu do governador.

Chico Crente, com sua paciência peculiar, tentou romper o bloqueio, o soldado perguntou a ele: “O senhor quer ir pra casa ou quer ir preso”? Ele, com firmeza e a mesma paciência, respondeu: “Vocês já levaram meus companheiros, podem me levar também”. Chico Crente era assim, um exemplo de lealdade, algo muito raro nos dias atuais.

Sem solidariedade, lealdade e companheirismo, a política se nivela a um covil de ladrões e traidores.

Chagas Batista, é colunistas de oestadoacre.

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